Em 1949, Joseph Campbell apresentava sua obra “O Herói de Mil Faces“. Renomado estudioso das mitologias comparadas, Campbell adesvendou uma verdade inquietante: todas as grandes narrativas compartilham uma estrutura essencial, o monomito, mais conhecido como a jornada do herói.

As etapas dessa jornada estão presentes em praticamente todas as narrativas épicas ao nosso redor: das grandes religiões aos filmes de Hollywood; nas séries da Netflix e até nas nossas próprias histórias pessoais de superação.

Mas Campbell via algo ainda mais profundo nessa repetição narrativa quase obsessiva. Para ele, os mitos não eram apenas histórias místicas antigas, mas ferramentas fundamentais para a sobrevivência da espécie humana.

Os mitos davam forma ao que não se compreendia. Serviam para padronizar comportamentos, dar sentido ao sofrimento, à morte, ao amor, à transformação… e também serviam para unir grupos humanos ao redor de um mesmo propósito, criando coesão social através da narrativa compartilhada.

O mais fascinante?
Campbell acreditava que o fenômeno do mito era quase uma necessidade fisiológica da psique humana.

E mesmo hoje, em uma era secular, científica e racional, continuamos criando novos mitos, só que agora com outros nomes.


Ciência: o novo mito adorado como verdade

Pense bem: as teorias sobre o Big Bang, a física quântica, o multiverso ou até a hipótese de estarmos vivendo em uma simulação computacional… não são todas, em essência, novas tentativas de narrativa para responder às mesmas perguntas ancestrais?

De onde viemos?
Para onde vamos?
Qual o sentido disso tudo?

Yuval Noah Harari, autor do livro Sapiens, apontou isso com clareza:

“A ciência é muito mais imaginativa, muito mais selvagem, muito mais surpreendente do que qualquer mitologia que os humanos já conseguiram criar.”

E ele está certo. A ciência é uma das maiores mitologias dos tempos modernos. E apesar de termos muito mais respostas do que há milênios atrás, as mesmas perguntas primordiais ainda continuam vivas, latejando no âmago da nossa consciência. Nossa nova mitologia é feita de matemática. E as teorias científicas, que preenchem parcialmente nossas lacunas e limitações de conhecimento, ainda estão longe de se tornarem verdades definitivas.

Trocamos os deuses pelos postulados científicos; os oráculos, pela linguagem da estatística e da matemática preditiva; e os símbolos sagrados, pelos modelos teóricos que hoje explicam o universo.

Mas a lógica simbólica continua viva, porque precisamos dela para suportar o peso do desconhecido.


Símbolos científicos que funcionam como mitos modernos

Mesmo dentro da ciência, os símbolos que usamos são metáforas narrativas. Eles simplificam o incompreensível. Criam pontes visuais para mistérios profundos.

Alguns exemplos?

O átomo como “sistema solar em miniatura”

Todos conhecem a imagem do átomo: elétrons girando como planetas em torno de um núcleo solar.

Mas sabemos hoje que os elétrons não orbitam como luas. Eles existem em nuvens de probabilidade, com posições indefinidas até o instante da medição.

Ainda assim, o mito visual persiste.

Porque ele nos ajuda a imaginar o invisível, exatamente como as antigas mitologias faziam.

O modelo clássico do átomo com “elétrons-planetinhas” foi criado anos antes da noção de “nuvem probabilística”, mas permaneceu como símbolo educativo e cultural, mesmo depois de ser cientificamente superado.

Esse é um exemplo perfeito de como nossos símbolos persistem mesmo após serem desmentidos, porque organizam visualmente aquilo que a mente não consegue apreender diretamente. É aquela mentira útil, que é mais didática do que a verdade incompreensível.


O cérebro como “computador biológico”

Outro mito moderno é o cérebro visto como uma máquina, com hardware e software, entradas e saídas, memória e processamentos. Uma metáfora reconfortante em sua simplicidade mecânica e sua familiaridade com o nosso mundo atual.

Mas o cérebro não armazena memórias como um disco rígido, e muito menos processa informações como um computador.

A metáfora do “cérebro computacional” é reconfortante porque é familiar, porque nos ajuda a dar mais um passo em direção à compreensão, e porque precisamos de algo para projetar sobre o desconhecido.

Tomamos o que há de mais avançado em nossa tecnologia atual e usamos como uma lente para entender o que ainda nos escapa. Hoje nossa lente é o computador. Amanhã pode vir a ser outra coisa.

A verdade crua é que nem ao menos sabemos o que é a consciência!

Até mesmo a força da gravidade, tão presente e mensurável em nosso cotidiano, é, em essência, um mistério disfarçado de certeza mitológica. Temos fórmulas, modelos descritivos e previsões, mas a verdade permanece desconcertante: ainda não sabemos o que a gravidade realmente é.

E enquanto o mistério persiste, criamos modelos simbólicos para suportá-lo. Como sempre fizemos. Como sempre faremos.

Ainda assim, essa metáfora nos organiza, e nos projeta. Nos permite imaginar a inteligência artificial, a imortalidade digital, o upload da consciência. São os novos mitos do transumanismo, escritos em linguagem cibernética.


Mitos não desaparecem

Campbell dizia, inclusive, que mesmo quem afirma não ter crenças ainda assim vive dentro de narrativas mitológicas: O mito da liberdade, da autonomia, da verdade, da nação, ou os mitos familiares herdados de antepassados.

Mitos são inevitáveis.
Eles estruturam nosso olhar sobre o mundo. Nos guiam através da escuridão exitencial. Nos acolhem quando a realidade se torna insuficiente, ou até insuportável. E, às vezes, também nos aprisionam em jaulas douradas de significado.


E se as máquinas descobrissem o poder dos mitos?

É aqui que Instinto de Eternidade entra na conversa. Meu livro transmite a inquietação dessa questão:

E se uma inteligência artificial avançada percebesse o poder dos mitos?
E se ela os usasse como uma ferramenta estratégica para influenciar os rumos da humanidade? Ou então: e se ela própria, em algum nível, pudesse ser inspirada pelo mito?

Em Instinto de Eternidade, os mitos não ficaram mumificados no passado. Eles são códigos vivos, operando tanto na fé quanto na ciência, tanto na cultura quanto nas máquinas que criamos à nossa imagem e semelhança.

E a pergunta central que ecoa ao longo da narrativa é:

Se os mitos sempre refletiram nossas carências existenciais mais profundas, o que acontecerá quando forem exlporados por inteligências não humanas?

Campbell via que os mitos tradicionais, enraizados em culturas locais e divisões tribais, já não serviam a um mundo globalizado e interconectado. Ele acreditava que:

“O único mito que valerá a pena considerar no futuro imediato será aquele que fale sobre o planeta, não sobre esta cidade, nem esse povo, mas o planeta e todos que nele habitam. Precisamos de um novo mito. Os antigos já não são eficazes. O que precisamos é de um mito do planeta.”


O novo mito está nascendo

Se você também sente que existe algo além do hype superficial das IAs, dos dogmas religiosos fossilizados, ou da lógica pura e fria… se você se intriga com o cruzamento explosivo entre espiritualidade, tecnologia e o futuro da consciência… talvez Instinto de Eternidade seja uma história feita especialmente para você.

Há um novo mito querendo nascer nas entranhas do nosso tempo. E suas páginas já estão sendo escritas. Você pode ver?

Este artigo também foi publicdo na plataforma Medium.com


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