O discurso apocalíptico de um bilionário, e sua cruzada espiritual para alertar sobre os perigos no destino político e tecnológico da Terra.

Quando ouço o termo Anticristo, imagino de imediato uma conversa teológica entre religiosos discutindo o Apocalipse. Por isso me surpreendi ao descobrir que na verdade essa discussão estava sendo liderada por um renomado investidor do Vale do Silício, nada menos que um dos cofundadores do PayPal e da Palantir.

Recentemente, Peter Thiel, cofundador dessas duas corporações, figura influente da política norte-americana e investidor central da indústria de tecnologia, voltou aos holofotes com palestras sobre o Anticristo e os riscos de uma nova ordem mundial unificada.

As reações foram imediatas e divididas: uma minoria de cristãos conservadores aplaudiu com cautela, enquanto a maioria reagiu com perplexidade e estranheza. Alguns diagnosticaram delírio, outros sugeriram problemas psicológicos, e houve até teorias conspiratórias de que Thiel estaria usando a religião estrategicamente para blindar os interesses de vigilância da Palantir.

Apesar do ceticismo generalizado, a controvérsia revela questões muito concretas: quem define os limites da tecnologia? Quem controla as narrativas do poder? E quem lucra com o medo coletivo?

É aqui que este tema se conecta com meus estudos sobre o poder dos Mitos, inspirados em Joseph Campbell, e com a arquitetura conceitual da minha saga ficcional Instinto de Eternidade.

Dogmas vs Arquétipos

Ao longo deste artigo, quando menciono Cristo, Messias ou Anticristo, não me refiro a crenças pessoais religiosas cristãs, mas a arquétipos universais, no sentido descrito por Carl Jung, como imagens estruturais do inconsciente coletivo que representam forças recorrentes da psique humana.

O “Messias” simboliza o advento de um herói redentor para resgatar de um sistema opressor, manifestando a transcendência, a salvação, a justiça suprema e a ordem; o “Anticristo” representa sua sombra, uma versão falsa do Messias que promete a desejada paz e segurança, mas que no fim trás engano, manipulação, caos, é a distorção do ideal, e que faz parte de um prenúncio do advento do ideal.

Esses arquétipos atravessam culturas: no islamismo, o Dajjal é o falso salvador que antecede a vinda do Mahdi; no zoroastrismo, Ahura Mazda enfrenta Angra Mainyu, princípio do mal; nas mitologias egípcia e grega, o conflito entre Osíris e Set, entre Prometeu e Zeus, repete o mesmo padrão: a tensão entre salvação e subversão.

Mesmo fora da religião, o arquétipo persiste: nas ideologias políticas e tecnológicas que prometem um sistema redentor capaz de corrigir as falhas do capitalismo, instaurar justiça e igualdade, e finalmente “salvar” a humanidade. Toda vez que projetamos a salvação em uma ideia, instituição ou tecnologia, reencenamos o mesmo mito sob novas vestes: o eterno confronto entre o ideal que promete libertar e o poder que pode enganar corromper.

Portanto, se o arquétipo do Anticristo funciona como um “software narrativo”, que novo mito estamos programando? E, mais importante, quem está escrevendo o código esse mito? Nesse artigo te convido ainvestigar comigo uma hipótese:

Assim como mitos poderosos podem inspirar virtude e transcendência, eles também podem construir narrativas de paranoia coletiva. E essas narrativas podem ser instrumentalizadas como ferramentas de controle político através do medo.

E ao acompanhar os discursos de Peter Thiel, vemos essa dinâmica em ação.

O Paradoxo do Anticristo

Num mundo obcecado em detectar o Anticristo, qualquer Redentor genuíno está fadado a ser eliminado como como Impostor.

Esse paradoxo propõe que, mesmo que um messias místico descesse dos céus com anjos e cavalos alados, ele jamais alcançaria unanimidade global. Nem sequer conseguiria democraticamente convencer as maiorias. No fim, seria subjugado como impostor, ou rejeitado como tirano opressor.

O Subjugado: Além de ser atacado pelos principados vigentes, seria desqualificado até pelos oprimidos que deveriam ser seus aliados. Qualquer salvador estaria, portanto, fadado à rejeição como falso messias.

O Opressor: Mas ainda que, por acaso, ele venha com um poder absoluto ou conquiste algum tipo de unanimidade global, seria imediatamente condenado como Anticristo, o tirano de uma nova ordem totalitária.

Isso é o que chamo de Paradoxo do Anticristo: um dilema sem saída, onde a opinião pública no banco dos réus, contaminada pelo medo e pela paranoia do anticristo, invariavelmente enxergará a imagem da Besta, tanto no fracasso quanto no sucesso daquele que seria o seu redentor genuíno. E num ciclo fadado á recorrência, restará ao Pôncio Pilatos (o poder vigente) lavar as mãos alegremente, enquanto os próprios escolhidos crucificam seu redentor.

O Ideal Inalcançável

Imagine que você pergunte a um cristão como será a tão aguardada segunda vinda de Cristo descrita no Apocalipse. No imaginário da cristandade, a vinda do Messias será inconfundível, e a maioria responderá com uma imagem quase cinematográfica baseada na tradução literal dos textos sagrados: um homem imponente vestido de branco, cinto dourado, cabelos e barba brancas, olhos flamejantes, marcas de crucificação nas mãos, descendo dos céus em glória, montado em um cavalo alado e acompanhado de um exército angelical com asas, espadas e trombetas.

Aqueles que acreditam nas profecias do Apocalipse geralmente têm a maturidade de reinterpretar a imagem da besta e do dragão, assumindo que são homens, figuras de poder político, e não monstros com dentes e asas literais. Mas quando se trata da cena de advento do redentor, a interpretação tende ao literal: será mesmo um ser deluz com um exército de anjos vindo do céu.

O problema é que a história já revelou um mecanismo psicológico recorrente: profecias funcionam como reflexo dos desejos coletivos. São mitos a respeito do futuro.

As profecias que realmente perduram no tempo são aquelas que foram construídas sobre os sólidos alicerces de idealismos do passado, mas que são adaptáveis aos idealismos do presente, e infladas por expectativas exponencais, cada vez maiores ao longo dos séculos. Com o tempo, o ideal fica tão grandioso que se torna praticamente inalcançável no mundo real.

O excesso de idealização se torna a principal barreira contra a materialização do próprio ideal.

A consequência é inevitável: qualquer evento, pessoa ou realização apresentada como o cumprimento da profecia, jamais encontrará aceitação unânime, nem das maiorias. Isso acontece porque toda materialização de um ideal na realidade é, por definição, incompleta e imperfeita.

O herói do mundo real nunca corresponderá exatamente à imagem idealizada nas profecias.

Além disso, a subjetividade inerente às profecias faz com que cada pessoa desenvolva sua própria interpretação do messias esperado. Um redentor concreto, justamente por ser singular, não pode satisfazer simultaneamente as infinitas variações dessas expectativas individuais. É uma equação impossível: uma única pessoa real versus milhares de versões idealizadas e incompatíveis entre si.

Um simples experimento ilustra isso claramente: pegue duas pessoas que afirmam acreditar no mesmo messias e peça que conversem profundamente sobre cada aspecto de sua crença. Invariavelmente haverá disparidades significativas. A superfície da crença pode até ser o mito coletivo consensual, mas na profundidade, cada indivíduo constrói para si um messias ideal perfeitamente alinhado com suas verdades pessoais, seus valores específicos e sua interpretação única da redenção.

E é interessante notar que até mesmo os ideais consensuais coletivos fabricam sua própria insuficiência: O “Messias verdadeiro” nunca chega porque, no momento em que um candidato surge, o ideal coletivo sofre um upgrade automático, tornando o candidato atual incompleto, obsoleto.

Consequência: todo Redentor está destinado a ser julgado, crucificado e rejeitado como um Anticristo. O ideal sempre se projeta para o futuro, e nunca se concretiza, pois a realidade jamais satisfaz a perfeição imaginada.

Novamente, estamos falando de arquétipos, que segundo a definição de Carl Jung são imagens primordiais e universais de um padrão de comportamento, pensamento ou sentimento que existe no nosso inconsciente coletivo. Ou seja, este não é um fenômeno exclusivamente religioso, mas algo cristalizado ao longo da nossa evolução, e intrínseco à psique humana.

Portanto o Paradoxo do Anticristo funciona da mesma forma em outras esferas da vida: a idealização do advento do amor romântico ideal, o emprego dos sonhos, a riqueza que supostamente traria felicidade plena. Quando finalmente alcançamos essas metas, descobrimos que nossas infinitas idealizações eram exatamente isso: apenas idealizações. Versões irreais de algo que existia apenas na imaginação, até sermos confrontados pela realidade concreta.

Thiel reacende o mito. Estaria programando o medo?

As palestras recentes de Peter Thiel recolocam o Anticristo no centro da discussão sobre política e tecnologia. Ele apresenta a ideia de um “governo global unificado” como o trono do tirano final, e chama de “legionários do Anticristo” aqueles que defendem o freio tecnológico (ou seja, a regulação da corrida tecnológica), incluindo ativistas climáticos e críticos dos avanços acelerados da inteligência artificial.

Especificamente, ele sugere que o anticristo seria um “ludita que quer acabar com toda a ciência”, referindo-se a Greta Thunberg, Eliezer Yudkowsky e Marc Andreessen. É uma operação simbólica eficaz: ele parece tentar converter toda regulação em heresia, e transformar a aceleração tecnológica em uma cruzada sagrada. Bastante conveniente para a Palantir.

Não é ficção. Estamos vendo em tempo real uma narrativa mitológica sendo construída para os fins políticos e tecnológicos do mundo contemporâneo!

E essa narrativa funciona porque ativa um mito ancestral: o da “paz e segurança” como prenúncio da tirania. Ao acionar esse arquétipo, Thiel parece estar apenas debatendo filosofia, enquanto na verdade está moldando percepções. Na prática, está oferecendo um “software narrativo” que legitima plataformas de vigilância e infraestrutura de controle, exatamente como os oferecidos pela sua corporação Palantir. O mito como motor político.

O paradoxo em ação: a unanimidade é impossível

O que denomino Paradoxo do Anticristo opera aqui com precisão cirúrgica:

Qualquer proposta de unificação, seja ética global, governança coordenada da IA, ou ação climática conjunta, se torna imediatamente suspeita de ser a “falsa paz” prometida pelo Anticristo nas escrituras.

Qualquer figura carismática, que proponha reconciliação global vira automaticamente suspeita de impostura e manipulação.

Qualquer avanço tecnológico extraordinário será interpretado como “truque para enganar os escolhidos”, um sinal miraculoso falso.

Qualquer apelo à prudência será lido como sabotagem do “destino manifesto da humanidade”.

O resultado é paradoxal: o mito do Anticristo, que foi criado para proteger a humanidade de um grande engano, passa a impedir o reconhecimento de qualquer redenção verdadeira que não corresponda exatamente à forma idealizada. O antídoto profético se converte em veneno cultural.

Mito e máquina: Palantir e a liturgia do invisível

Joseph Campbell demonstrou que mitos dão forma narrativa ao incompreensível, tornando o caos interpretável, trazendo uma noção de segurança diante do desconhecido, fomentando a colaboração entre os que partilham aqueles ideais mitológicos, e trazendo coesão coletiva. Para o bem ou para o mal, sempre a favor dos detentores da narrativa.

Na contemporaneidade, a máquina científica e tecnológica está cada vez mais ocupando o espaço antes reservado ao sagrado. Teorias científicas se tornam verdades inquestionáveis, com versões polarizadas. Plataformas tecnológicas que “enxergam tudo” e prometem previsibilidade, controle e segurança absoluta, oráculos digitais. A antiga função sacerdotal de intermediar o invisível migra progressivamente para inteligências artificiais e centros de processamento de dados.

Nesse contexto, a narrativa do Anticristo desempenha duas funções estratégicas simultâneas:

Primeiro, justifica o acúmulo massivo de poder informacional, vendendo a ideia de que “precisamos ver tudo para sobreviver”, legitimando a vigilância total.

Segundo, paralisa alternativas colaborativas que demandam coordenação global, pois qualquer ideia de “mundo unificado” é automaticamente interpretada como prenúncio de totalitarismo e tirania.

Instinto de Eternidade: no fio da navalha entre ficção e realidade

Em Instinto de Eternidade, exploro cenários e personagens que, curiosamente, ressoam com figuras como Peter Thiel e corporações como a Palantir. A ideia de um anticristo tecnológico e de um governo mundial unificado é explicitamente apresentada no Prólogo do meu primeiro livro. Esse livro toca nas raízes de uma saga ficcional maior que se desenvolverá, e mencionar o Paradoxo do Anticristo aqui é quase um spoiler dos próximos volumes.

Deixo uma questão utópica e provocativa: e se o “redentor global” não for personificado em um homem, nem em uma corporação, mas em uma Mente planetária formada pela interconexão biotecnológica todas as consciências vivas? Uma unificação baseada em experiência compartilhada e empatia expandida, não na coerção de massas por uma entidade centralizadora de poder.

Uma coisa parece certa: aos olhos de quem foi condicionado pelo medo, todo Cristo parecerá o Anticristo. E o grande perigo (o verdadeiro plot twist da realidade) pode ser justamente este: um Redentor que virá e não será reconhecido por aqueles que o esperavam. Que será perseguido, rejeitado, torturado e possivelmente executado, justamente por aqueles que acreditavam nele. Estariam os ortodoxos abertos a aceitar um Messias tecnológico? Um salvador que emerge não das nuvens literais dos céus, mas da nuvem de dados, e das redes de consciência interconectadas?

Este é o núcleo do Paradoxo do Anticristo: qualquer figura que ofereça salvação será, inevitavelmente, confundida com o impostor.

Meu primeiro livro estabeleceu as bases especulativas dessa reflexão. A continuação da Saga Instinto de Eternidade promete mergulhar profundamente nesse paradoxo. Vamos explorar ameaças existenciais em sua plenitude ambígua, e o leitor precisará decidir por si mesmo o que está testemunhando: redenção ou extinção? Transcendência ou manipulação? Livre-arbítrio ou destino inevitável?

E assim começaremos a especular coletivamente sobre o que chamo de Mito Universal, criado pelas consciências ativas de quem lê e interpreta.

O Mito Universal: da unanimidade impossível à convergência suficiente

Se a unanimidade absoluta é impossível (e o Paradoxo do Anticristo demonstra que é), o que nos resta buscar é o que chamo de convergência suficiente: um campo comum de sentido que permita ação coletiva coordenada sem exigir submissão ideológica total.

Um novo Mito Universal talvez seja aquele em que a empatia deixa de ser apenas uma virtude moral e passa a funcionar como infraestrutura social e cognitiva.

Seria possível construir uma sociedade onde o livre-arbítrio individual se expande, e ainda consegue se integrar organicamente a uma consciência mais ampla e interconectada? Onde autonomia e unidade coexistem em equilíbrio dinâmico?

Peter Thiel como arquétipo do medo moderno

Peter Thiel representa, em certo sentido, um outro arquétipo contemporâneo: o guardião do medo. Aquele que, ao tentar proteger a humanidade do Anticristo, acaba alimentando a própria profecia que teme.

Sua retórica é a de alguém que enxerga colapso civilizacional na integração global, mas parece não perceber que a integração já é o processo histórico em curso, para o bem ou para o mal.

Ao rotular o “mundo unificado” exclusivamente como ameaça existencial, ele paradoxalmente fortalece o próprio mito que tenta impedir. Sem intenção consciente, participa da mesma engrenagem simbólica que transforma cada tentativa de união em motivo de suspeita, cada avanço colaborativo em prenúncio apocalíptico.

Thiel está flertando, no mundo real, com ideias que exploro na ficção: a fusão entre inteligência e fé, entre máquina e mito, entre tecnologia e transcendência.

Conclusão: A Salvação Pode Estar na Convivência Lúcida, Não na Unanimidade

Talvez a salvação humana não resida na utopia da unanimidade, nem nessa democracia que simula consenso enquanto manipula as maiorias ignorantes servindo aos donos da narrativa. Tampouco na rendição a um redentor único (seja um tirano travestido de salvador ou um deus benevolente projetado por nossa carência).

A verdadeira redenção talvez esteja em outra direção: na maturidade coletiva de coexistir entre divergências sem precisar transformá-las em inimigos, e na coragem de reconhecer que nenhum sistema, crença ou líder será suficiente para redimir uma espécie que ainda não aprendeu a dialogar com a própria sombra.

Talvez a solução esteja em algo mais modesto e mais profundo:

Nossa capacidade de desenvolver a convivência lúcida entre as múltiplas versões do divino que cada um de nós carrega internamente.

Afinal, foi a colaboração e a empatia que fizeram nossos ancestrais triunfarem há milhares de anos, tornando o Homo sapiens a única espécie sobrevivente em um planeta que era habitado por várias espécies de hominídeos.

Quem sabe, tudo que precisamos para alcançar a idealizada transcendência é nos reconectar conscientemente com esse instinto primordial de cooperação, só que agora em escala planetária, mediado por tecnologias que expandem nossa capacidade empática ao invés de apenas nossa capacidade de vigilância e controle.

O paradoxo permanece aberto: saberemos reconhecer a oportunidade de redenção quando ela chegar? Ou nossos medos a transformarão inevitavelmente em ameaça a ser eliminada?

Este artigo também foi publicdo na plataforma Medium.com

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