Estive pensando em histórias de Natal que realmente valem a pena ser contadas para minha filha de 8 anos. Existem muitas belas histórias, e eu já lhe contei todas. Mas confesso que este ano vamos fazer diferente. Vamos fazer um exercício de imaginação… Imagine como seriam seus sentimentos e sensações se você fosse uma anciã Homo sapiens do Neolítico. Vamos chamá-la de Kira…
Kira era uma anciã que liderava uma das primeiras tribos agricultoras que ergueram estruturas de pedra como Stonehenge (monumentos que ainda hoje marcam solstícios com precisão impressionante).
Kira era uma mulher muito respeitada, pois já havia conseguido ajudar sua tribo a sobreviver a muitos invernos. Mas ela também carregava um peso eterno no coração, pois havia perdido muitos filhos e filhas no passado, por causa da fome nos invernos mais rigorosos, quando o plantio e o armazenamento de grãos ainda não eram técnicas tão bem dominadas. Mas agora, após dominar o cultivo do trigo, sua tribo havia crescido de dez para dezenas de pessoas, e em breve seriam centenas. Kira estava orgulhosa… Sentada numa pedra naquela madrugada fria, ela observa aliviada o nascer do sol após a noite mais longa do ano : o solstício de inverno.
Diferente de nós hoje, que já sabemos que o sol brilhará garantidamente pelos próximos 5 bilhões de anos, para os ancestrais de Kira, naquela época, o sol ainda era pura magia e incerteza. Cada amanhecer era uma vitória contra as trevas. E aquele amanhecer específico, após a noite mais assustadora, era sagrado. Pois, quando acontecia, comprovava uma das mais primordiais e mais recentes certezas humanas a respeito da natureza: era o início do nosso entendimento sobre a precisão matemática do sol a longo prazo, o início da nossa tranquilidade de que não precisávamos nos preocupar tanto com o nascer do próximo sol no dia seguinte, pois havíamos percebido que, pelo menos a cada ano, seu ciclo se repete!
Mas claro, ainda tínhamos medo… Não mais do próximo dia, mas do próximo ano. Pois, da mesma maneira que antes não tínhamos ideia se o próximo dia seria o último, agora não sabíamos se o próximo ano seria o último.
Kira sabia calcular a posição do sol usando varas de madeira e sombras , conhecimento que ela havia herdado de seus pais (e que, aliás, muitos de nós hoje, tão evoluídos e modernos, não temos ideia de como calcular!). Ela sabia que a luz sagrada daquele astro alimentava as plantas que sustentavam sua gente. Por isso, naquele dia, a tribo celebrou. Pois mais uma vez o sol havia nascido, após a noite mais longa.
Mas naquele dia, a festa anual teve um toque especial. Kira estava ficando idosa e, apesar de ter passado todo seu conhecimento para os agricultores mais jovens, ela queria garantir que aquele conhecimento jamais se perderia. Por isso, numa cerimônia única e especial, ela decidiu erguer um grande poste de pedra, um marcador perpétuo com instruções específicas, ao invés das varas de madeira, para que as próximas gerações pudessem sempre medir as sombras, garantir colheitas e confirmar: se após a noite mais longa o sol renascer, teremos mais um ano de vida pela frente!
Assim nasceram os primeiros observatórios solares. E foi assim que nasceu o primeiro Natal. Não o Natal egípcio, ou romano, nem cristão, mas o Natal da Humanidade.
(Tenho lido para minha filha a série “Indomáveis” de Yuval Harari. Essa minha pequena história foi inspirada pela maneira incrível como Yuval nos ensina sobre a história da humanidade com um toque mágico de algo que chamo de “imaginação empática”, histórias fictícias que nos ajudam a nos colocar na pele de nossos antepassados.)


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