Um ensaio sobre a utopia e os arquétipos do Paraíso: A Nova Jerusalém Sempre Foi uma Cidade Privada?

(Este artigo também foi publicado no Medium).

Está cada dia mais claro: o novo grande objetivo dos bilionários do Vale do Silício não é mais criar o próximo aplicativo viral, mas sim fundar os seus próprios países particulares. Cansados das burocracias das democracias modernas, grupos de investidores de elite estão comprando territórios e ilhas para erguer ‘cidades privadas’ (ou Network States) com leis próprias, governança corporativa e cidadania seletiva.

Enquanto esses investidores de elite no Vale do Silício erguem cidades privadas para seus escolhidos, assistimos aos arquétipos mais ancestrais da humanidade se repetirem.

É fácil criticar o paraíso capitalista dos bilionários, mas se olharmos com honestidade para nossos próprios ideais (religiosos, políticos, científicos), descobrimos um padrão incômodo: todo paraíso tem muros, um punhado de eleitos, e uma multidão de excluídos. Existe uma alternativa mais inclusiva? Ou estamos condenados a descobrir que o paraíso é, por definição, um condomínio fechado?

No mito judaico-cristão, a Nova Jerusalém desce do céu como a cidade fortificada de Deus. Já o Valhalla nórdico só aceita guerreiros mortos em combate. Os Campos Elíseos gregos exigem heroísmo aprovado pelos deuses. Os Campos de Junco egípcios pesam a virtude do seu coração contra uma pena. Os Vimanas hindus transportam apenas os iluminados para cidades celestes.

Imagem: Arte conceitual, versão futurista da Nova Jerusalém, a cidade voadora descrita no livro do Apocalipse.

E hoje, bilionários da tecnologia propõem “network states”, cidades privadas com governança corporativa e critérios de entrada. Network States representam uma nova forma de organização social e política que se distingue dos modelos tradicionais de estado-nação: Em vez de depender de fronteiras geográficas e governos centralizados, os Network States são comunidades virtuais formadas por indivíduos que compartilham valores, interesses ou objetivos comuns.

Chamam isso de inovação política e tecnológica. Mas repare bem na estrutura: ordem perfeita, prosperidade controlada, fronteiras seletivas. Isso não soa familiar?

É porque aquilo que eles defendem como inovação não passa de um conceito tão antigo quanto a própria civilização.

Sou alguém que cresceu sendo preparado para o Apocalipse. 

Nasci na Baixada Fluminense, periferia do Rio de Janeiro, região profundamente influenciada pelas vertentes contemporâneas do cristianismo (tais como o pentecostalismo neopentecostalismo, ou simplesmente “os evangélicos”). Filho de um pastor evangélico, passei minha infância, adolescência e início da vida adulta imerso nas práticas da fé, e a casa onde eu morava era literalmente dentro da igreja. Fui formado por sólidos princípios bíblicos, crendo piamente em todas as suas verdades antigas e, mais do que isso, cresci me preparando para as verdades vindouras e o futuro descrito nas profecias do Livro das Revelações, ou como é mais conhecido: o Livro do Apocalipse.

Decorei cada símbolo, cada evento escatológico referido nesse livro tão fascinante, misterioso e muitas vezes assustador. Eu sabia de cabeça as missões e as cores de cada um dos quatro temidos Cavaleiros do Apocalipse.

Os quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Viktor Vasnetsov (1887).
Imagem: Os quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Viktor Vasnetsov (1887).

Sou de uma geração de “nerds gospel” que passava noites tentando decifrar os enigmas do profeta João. Em suas visões sobrenaturais ele descrevia as cenas do Armagedon (a grande batalha do juízo final) usando imagens vívidas, como a clássica cena do esquadrão monumental de “gafanhotos emparelhados com armaduras metálicas, cujo ruído das asas ecoava como um batalhão de carruagens de cavalos cavalgando para o combate, e tinham o poder de causar dano mortífero a toda a terra por cinco meses” (Apocalipse 9:7–10). Na minha imaginação, eu interpretava essa descrição como sendo a única maneira que um homem do final do século I d.C. seria capaz de descrever a visão espantosa de um gigantesco enxame de drones militares em intervenção militar, com ataques de armas nucleares ou biológicas num futuro distópico.

Naquela época eu acreditava piamente na veracidade total e na inerrância absoluta da Bíblia. Até que um dia a dúvida chegou, trazendo consigo uma série de desilusões teológicas, espirituais, morais, ideológicas….. e por fim veio a triste perda de uma identidade construída ao longo de toda uma vida. Experimentei o traumático exílio silencioso da minha tribo, forçado pela minha incapacidade de voltar a crer. É difícil explicar essa dor para quem nunca a viveu. Mas está nos top 3 das dores psíquicas mais devastadoras da minha vida.

Mas algo permaneceu em mim: a essência dos mitos. Passei anos finalmente estudando as crenças alternativas que eu antes fui ensinado a ignorar ou a simplesmente assumir como “falsas doutrinas”. Naveguei desde o animismo indígena ao xamanismo ancestral, religiões orientais, mitologia antiga, hermetismo, bruxarias, depois a filosofia desde os clássicos gregos até os pensadores contemporâneos, ciências políticas, e enquanto mergulhava nas mitologias assírias, egípcias, hindus, descobri Joseph Campbell.

Campbell se re-popularizou recentemente por ter formalizado a Teoria do Monomito, ou Jornada do Herói, que é muito usada até hoje em cursos de story telling, e na concepção das “mitologias pop” dos super heróis contemporâneos de Hollywood. Mas o que me atraiu para ele foram seus estudos sobre religião comparada, e os arquétipos universais elaborados na sua série de 4 volumes Máscaras de Deus. Percebi algo fascinante, mas também perturbador: estamos sempre contando as mesmas histórias, apenas trocamos as máscaras dos personagens.

Hoje, sou gestor de design de produtos digitais, autor de ficção científica e, conforme o ritmo de “proletário da informática do século XXI” me permite, tento nos tempos livres ser um polímata obcecado pelo passado ancestral e pelo futuro distante. Minha saga de ficção especulativa Instinto de Eternidade explora exatamente isso: como o avanço científico e tecnológico está reencenando nossos mitos mais antigos e afetando nossas crenças mais sagradas.

Para escrever sobre esses temas, tenho me debruçado nos últimos 20 anos sobre pesquisas profundas a respeito da história da nossa espiritualidade, ao mesmo tempo em que me mantendo sempre a par dos avanços tecnológicos mais recentes e eventos geopolíticos globais. Tudo isso para garantir que vou entregar uma ficção científica que vai além do entretenimento superficial, uma obra de qualidade com profundidade filosófica, crítica e realismo científico no melhor rigor do hard sci-fi e da ficção especulativa.

Outro fruto dessa dedicação é meu recente projeto da Nave Geracional Arkkana, uma cidade voadora, mencionada brevemente no primeiro volume do meu livro, e que em 2025 recebeu uma menção honrosa na Competição Internacional Project Hyperion, com júri composto por engenheiros da NASA.

Imagem: Divulgação do Project Hyperion Design Competition, uma competição de design de naves interestelares com princípios e hiper realistas de engenharia espacial, arquitetura e engenharia social .

E agora, enquanto escrevo meu segundo volume da saga Instinto de Eternidade, tropeço constantemente nesta questão: as cidades privadas que os bilionários atuais estão construindo não são uma novidade futurista. Fiz recentemente um post bem interesante sobre isso, listando as principais iniciativas de private city que estão em construção neste exato momento. São tentativas de materialização de paraísos idílicos, exatamente como o mito cristão da Nova Jerusalém, e diversos mitos de outras culturas ancestrais.

Reino que esperamos vs Reino que tememos

Vou começar por um dos mais populares mitos ocidentais: o imaginário cristão apocalíptico. Acredito esta seja uma grande influência no nosso imaginário coletivo, com grande responsabilidade na nossa tendência de criar mais histórias distópicas (“O Exterminador do Futuro”, conflito colapso) do que utópicas (“Star trek”, sociedade avançada, extinção da escassez).

No imaginário apocalíptico temos de um lado o Anticristo: o governante global com controle total, a “marca da Besta” geralmente interpretada como um chip na mão ou na testa dos que se rendem ao seu poder, a submissão compulsória. A manifestação do mal organizado numa Ordem Global.

Imagem: O Diabo sussurra ao Anticristo; detalhe de Sermões e Atos do Anticristo, Luca Signorelli, 1501, Catedral de Orvieto.

Do outro lado, a Nova Jerusalém: o reino divino, eterno e sem dor, sem conflitos, governado pela justiça divina e absoluta do Cristo ressurreto.

Mas o que pouca gente percebe é este padrão inquietante: Estruturalmente, ambos os reinos são idênticos.

Ambos são reinos centralizados que exigem submissão total, têm critérios de entrada e exclusão, prometem ordem perfeita, transcendência aos escolhidos, condenação aos exilados. A diferença? Um é considerado divino, o outro maligno.

Mas quem define o que é divino e o que é maligno? Simples: Os detentores da narrativa mais poderosa.

Mas antes que meu leitor mais cético e desconectado de qualquer senso de religiosidade pense “isso é problema dos religiosos, não dou a mínima para essas superstições”, aguenta firme e continue me acompanhando. Pois esse padrão não é só religioso, ele atravessa todos os idealismos humanos.

Todos os Paraísos Têm Anjos-Porteiros

Faça esse exercício: substitua “Nova Jerusalém” por “sociedade sem classes” e assim surgirá o paraíso marxista: sem exploração, sem propriedade privada. Mas para chegar lá? Ditadura do proletariado, reeducação, expurgo dos dissidentes. Quem não se encaixa é inimigo desse futuro perfeito.

Ou experimente substituir por “república de filósofos-reis” e surge o que Platão imaginou como a cidade perfeita, governada pelos sábios, cada um no seu lugar, ordem absoluta. Se você discordar? Não é virtuoso o bastante para fazer parte do clube.

Agora substitua por “progresso científico inevitável” e surge o positivismo do século XIX: razão e ciência eliminando a superstição e o conflito. Quem resistir se tornará resquício de um passado retrógrado, um obstáculo a ser removido.

Ou substitua então por “mercado livre perfeito” e surge o libertarianismo radical capitalista: sem Estado, o mercado soberano gera prosperidade. Quem não competir? Problema de mérito. O sistema é perfeito, você é que não trabalhou o suficiente para enriquecer e desfrutar do melhor.

Por fim, substitua por “singularidade tecnológica”, e surgirá a ideia da IA que resolverá tudo: escassez, doença, morte. Mas e quem ficar fora da fusão com a máquina, se tornará obsoleto, biologicamente limitado, fadado à extinção.

Percebe? Todo idealismo carrega a mesma estrutura: a ordem perfeita que exige a exclusão sistemática.

Os pecadores, os burgueses, os ignorantes, os irracionais, os fracos, os primitivos, os tolos, os feios, os imigrantes, os pobres, os divergentes. Sempre tem alguém que não cabe no paraíso.

É Mais Fácil Acreditar no Cavaleiro Invisível das Nuvens

É muito mais fácil acreditar num paraíso imaginário e terceirizar a justiça e a perfeição para Deus. Afinal, o imaginário é sempre seguro e imaculado, enquanto qualquer tentativa de construir o paraíso no mundo real será, inevitavelmente, uma obra suja, falha e controversa.

Há algo sedutor na salvação idealista no imaginário do fiel devoto (ainda me lembro bem dessa sensação). Acreditar em um Messias descendo das nuvens, ou numa dialética histórica inevitável, ou num algoritmo de IA que resolverá a humanidade. Nesses cenários, a promessa é o conforto da passividade: você não precisa construir, negociar com quem discorda, nem sujar as mãos excluindo dissidentes. Basta esperar e ter fé. Se tiver a sorte de estar no “lado certo da história”, seu ditador benevolente favorito fará o trabalho sujo por você.

Imagem: Interpretação ilustrativa clássica da segunda vinda de Cristo.

O idealismo místico costuma se defender dessas críticas fugindo para a abstração. Ele transforma qualquer questionamento prático em heresia, argumentando que “o Reino Divino é invisível e espiritual”, e portanto, está além da nossa compreensão lógica. Existe um momento revelador nesses debates: quando os argumentos racionais acabam, surge o refúgio no “subjetivo”, no “metafórico”, ou no “metafísico”. Nesse contexto, a palavra “espiritual” deixa de indicar profundidade e vira um escudo contra o pensamento crítico, um aviso de que aquele terreno é proibido à análise. Rotular algo como “espiritual demais, logo, incompreensível”, é um artifício falacioso que transforma magicamente qualquer conto de fadas para adultos e o valida como crença transcendental.

É uma dinâmica comparável à uma criança que diz “meu amigo imaginário é melhor que seu amigo real. Não tenho como provar, mas é”. O amigo imaginário é perfeito e seguro; o amigo real é falho e complexo, mas existe. Ao blindar uma crença com o escudo do “espiritual inefável”, nós a transformamos nesse amigo imaginário: um anestésico confortável, que no fim tem menos realidade que uma obra ficção ou fantasia literária.

Mas há o outro lado da moeda, igualmente problemático: o idealismo literal.

Basta pensar na tradição judaica da Nova Jerusalém ou no messianismo que não espera um céu nas nuvens nem um reino invisível espiritual, mas exige um Reino físico, geográfico, político (e bélico), aqui na Terra, numa coordenada específica e inegociável. Se o problema da utopia espiritual é ser vaga demais, o problema da utopia literal é ser rígida demais. Uma “Nova Jerusalém” física precisa de fronteiras, de muros de pedra, de leis de pureza e de critérios de cidadania. A utopia literal não permite metáforas: ela exige a exclusão física de quem não se encaixa no ideal sagrado.

É exatamente isso que vemos quando tentamos conceber o paraíso no mundo real hoje. Imagine a decisão de não esperar por intervenção divina, mas desenhar você mesmo cidades, escrever leis e definir quem entra. É o que os bilionários que movem o mundo estão fazendo. Eles abandonaram a espera mística, rejeitaram a invasão geográfica com poder bélico, e adotaram a estratégia da construção literal com o poder da influência do capital.

Imagem: Praxis se intitula a primeira Nação Digital do mundo, um lar para os corajosos que buscam a virtude e a sabedoria. Seu propósito é “restaurar a Civilização Ocidental”. Seus membros já possuem um patrimônio agregado de US$ 452 bilhões, e Sam Altman e Peter Thiel estão entre seus investidores.

Assisti recentemente à série Paradise (Hulu/Disney+), que ilustra esse ponto com perfeição. Vemos uma comunidade planejada onde a líder não esperou pela salvação, mas a construiu com iniciativa própria, usando tecnologia, capital e carisma. É um paraíso onde segurança e prosperidade custam o preço da conformidade absoluta e a exclusão das massas. De repente, a “magia” desaparece e o que sobra é a estrutura nua: uma private city. Com muros reais, guardas reais, exclusões reais.

A conclusão é inevitável: seja na Nova Jerusalém bíblica ou na utopia tecnológica, qualquer paraíso exige um “anjo-porteiro”. Enquanto a utopia espiritual se alimenta da esperança sem prazo e insiste em nunca existir, a utopia física oprime justamente por tentar existir. Quando o porteiro é humano (um bilionário, um burocrata, o dono do algoritmo), vemos claramente o poder concentrado e o critério arbitrário sem a roupagem da fantasia mística.

Talvez o problema real não seja quem governa, mas a própria ideia de Paraíso. Pois todo paraíso, querendo ser “puro” (seja espiritualmente ou fisicamente), acaba sempre se tornando um sistema totalitário que, sob a propaganda de inclusão e benevolência, se sustenta na exclusão do diferente.

O Anticristo Chega Consertando

Joseph Campbell ensinou que mitos não são literais, mas também não são mágica espiritual, são padrões arquetípicos que se repetem no comportamento coletivo. Esses mesmos investidores do vale do silício que hoje se envolvem em iniciativas de construção de cidades privadas sabem disso, e têm realizado ensaios político-filosóficos sérios sobre o impacto econômico e social do conceito do Anticristo (tenho um outro artigo aprofundando esse tema aqui).

Imagem: Peter Thiel dando uma palestra sobre o Anticristo em São Francisco, 2025.

O arquétipo do “falso salvador” (ou Anticristo, Grande Irmão, a Besta, o Dajjal, o Tirano, a IA maligna suprema) não é o vilão de malvadeza óbvia. Pelo contrário, ele chega resolvendo problemas, trazendo ordem ao caos, respondendo dúvidas com carisma, oferecendo pertencimento, derrubando os opressores vigentes, fazendo milagres. Porque é isso que convence.

Quando líderes tecnológicos falam em “reinventar governança”, quando revolucionários políticos falam em “construir uma nova democracia”, ou quando tecnocratas falam em “gestão baseada em dados e vigilância”, quando religiosos falam em “Reino de Deus”, todos estão ativando o mesmo arquétipo. E não é necessariamente por malícia, é a simples manifestação da essência de qualquer idealismo, que oferece o que todos secretamente queremos: um mundo que funciona, desde que você concorde com as regras.

E se você discordar? Você é livre. Livre para ficar de fora.

É a famosa “Paz injusta”. Mesmo que não haja coerção explícita, há sempre uma estrutura suave onde discordância se transforma em “incompatibilidade de sistema”.

Você é expulso através de uma discriminação sutil, e um ódio distorcido, covardemente resignificado como “ato de amor”. O veredito é inescapável: Você não pertence.

Toda Utopia Carrega Sua Distopia

Utopia, por definição, é o lugar perfeito. E a perfeição, por definição, exclui a imperfeição. Logo, quanto mais perto do ideal, mais violenta será a exclusão. Não importa se o paraíso vem de Deus, da Grécia antiga ou da Universidade de Stanford. Se há “dentro” e “fora”, haverá hierarquia. Se há critérios de entrada, haverá exclusão. Se há ordem perfeita, haverá controle absoluto.

Isso me lembra da série The Good Place, que explorou brilhantemente esse paradoxo. O que começa parecendo um céu exclusivo para a ‘elite moral’ (baseado num sistema rigoroso de pontuação de mérito), revela-se uma tortura psicológica sutil, gerada justamente pela convivência forçada e pela vigilância constante de um arquiteto que sorri enquanto julga. E, numa camada ainda mais profunda, a série concluía que a verdadeira perfeição estática, uma eternidade onde todos os desejos são atendidos e não há conflitos, acaba por drenar todo o propósito da existência, transformando seus habitantes em ‘zumbis’ entediados. A hipótese final era essa: a perfeição não é apenas excludente; ela é, em última análise, insuportável para a consciência humana.

A questão não é temer o Anticristo demoníaco ou o CEO-filósofo. É temer nossa própria sede por ordem. Talvez o perigo não seja o reino do mal, mas qualquer reino que prometa nunca mais termos que lidar com a contradição, com o discordante, a negociação, a imperfeição, o pecador. Não importa se embalado em linguagem religiosa, revolucionária, científica ou empreendedora. O arquétipo é o mesmo.

As Últimas Fronteiras: Mente-Colméia ou Solidão Absoluta

Mas então, não dá para ser inclusivo e ao mesmo tempo sonhar com a “sociedade perfeita”? E se toda proposta de nova estrutura social ideal estiver inevitavelmente fadada a gerar uma exclusão injusta?

A ficção científica explora mais duas alternativas radicais:

A Mente Coletiva: Eliminar o indivíduo, fundir todas as as consciências, criar a unidade através da dissolução do “eu”. O livro (e o filme) Ender’s Game explora bem a ideia dos Formics, uma civilização alien com mente-colmeia aparentemente monstruosa, mas que revela uma complexidade moral devastadora. A recente série Pluribus (AppleTV) imagina uma sociedade onde mentes se fundem numa entidade global. Mas essa também não é uma ideia nova, afinal, até o budismo Mahayana flerta com isso: o Nirvana é justamente a dissolução do ego no Todo. Esse paraíso é realmente o arquétipo da inclusão unificada, mas o preço da entrada é sua individualidade…

Imagem: A série Pluribus (AppleTV) imagina uma sociedade onde mentes se fundem numa entidade global.

O Isolamento Perfeito: O oposto radical seria dar a cada indivíduo o seu próprio universo privado. Paraísos pessoais, infinitos, visitáveis apenas por quem quiser se adequar às regras locais. Achei incrível quando o livro The Metamorphosis of Prime Intellect leva isso ao extremo: uma IA onipotente concede a cada humano seu próprio paraíso particular personalizado. Sem sofrimento, sem escassez, e sem conflito, porque não há qualquer necessidade de manutenção do contato com quem não te interessa, a não ser em arenas de competição onde os egos de cada deus podem se degladiar sem o risco da mortalidade. Não há exclusão porque não há sociedade. O Valhalla dos mitos nórdicos permitia isso. Campos Elíseos também. Cada herói em seu próprio cantinho de glória eterna. O paraíso individualizado, mas nesse caso, paga-se com solidão.

Pelo visto o ticket de entrada em qualquer paraíso sempre tem um preço alto.

Imagem: O Nirvana de Buddha é justamente a dissolução do ego no Todo.

E Agora?

Escrevo ficção sobre futuros possíveis. E quanto mais estudo sobre o tema, mais clara fica a bifurcação: podemos esperar pelo milagre (divino, político, tecnológico ) e aceitar suas condições, ou podemos tentar construir nosso paraíso (se tivermos recursos para isso) e aceitar que ele terá muros. Ambas as opções exigem submissão. Ambas excluem alguém.

Os arquétipos não vivem nas escrituras ancestrais. Vivem em nós. Na nossa sede por sentido, na nossa fadiga diante do caos, no nosso desejo coletivo legítimo de que as coisas melhorem. O cristão quer a Nova Jerusalém. O muçulmano quer a Sharia. O revolucionário libertário quer a sociedade sem classes. O tecnólogo quer a Singularidade. O liberal capitalista quer o mercado perfeito. Todos querem um mundo que funcione para si e para os seus semelhantes. E todos estão dispostos a deixar alguém de fora.

A Pergunta Que Fica

Talvez o futuro seja decidido por profetas. Ou talvez por arquitetos, engenheiros, empreendedores, filósofos, burocratas, programadores, políticos, terroristas. E quando algum deles terminar de construir sua cidade perfeita (high-tech? Socialista? Teocrática? Algorítmica virtual?) a pergunta não será “funciona?”, mas: você está dentro ou fora dos muros?

E se estiver dentro, por quê foi escolhido? Deus te escolheu? Qual Deus? A história te favoreceu? O mercado te recompensou? Você tinha capital? As conexões certas? Tinha as convicções morais alinhadas com o ditador vencedor?

Ou Existe Uma Terceira Via?

Estudiosos como Yuval Harari (autor de Sapiens) e Ella Al-Shamahi (exploradora e paleoantropologista britânica) nos lembram que a grande vantagem evolutiva da humanidade nunca foi força física nem inteligência individual. Foi a capacidade de cooperar em massa com estranhos. 

O antropólogo Christopher Boehm aprofunda isso com o conceito de “Hierarquia de Dominância Reversa”. Segundo ele, por milênios, nossas tribos ancestrais não prosperaram obedecendo cegamente a um macho-alfa (o arquétipo do ditador, do messias, ou do bilionário salvador). Pelo contrário: elas prosperaram porque o grupo se unia para impedir ativamente que qualquer indivíduo acumulasse poder excessivo. A verdadeira “utopia” ancestral não dependia da submissão a um líder perfeito, mas da vigilância coletiva contra o surgimento de tiranos.

E cooperação em massa exige algo delicado, quase impossível: confiar em quem pensa diferente de você.

Aqui está o paradoxo: todos os paraísos que imaginamos eliminam essa necessidade de lidar com o diferente. Eles prometem ordem através da uniformidade. Todos pensando igual, querendo o mesmo, seguindo as mesmas regras, o mesmo ideal, o mesmo líder, o mesmo Deus. É tentador, é eficiente. Mas é exatamente o oposto do que nos trouxe até aqui enquanto civilização, porque a força da humanidade nunca foi o consenso, foi a negociação constante entre as diferenças, e a confiança mútua.

Quando tive minha grande crise de fé, perdi a sensação reconfortante da certeza absoluta. Foi doloroso. Mas algo inesperado emergiu desse luto: comecei a me sentir muito mais confortável com a dúvida do que com a sensação de posse de uma verdade absoluta. E descobri que, mais importante do que professar uma crença sólida, é desenvolver a capacidade de fazer perguntas e compreender a perspectiva de quem acredita em coisas completamente estranhas a mim. Não para convertê-los, nem para imitá-los, não para provar que estão errados, mas para ser capaz de dialogar enquanto construimos algo grande juntos, mesmo discordando em vários aspectos.

Talvez a ausência de certezas não seja uma fraqueza. Talvez seja antes uma habilidade humana sofisticada. E talvez seja uma boa forma de viabilizar a criação de algum senso de unidade realista, sem sacrificar individualidade.

A Mitologia Que Ainda Não Escrevemos

Joseph Campbell propôs algo radical para sua época, ainda mais urgente para a nossa realidade hoje:

Precisamos de uma mitologia que não pertença a uma nação, cultura ou religião. Precisamos de uma mitologia do planeta, da humanidade, da vida. Não um paraíso para os escolhidos, mas uma narrativa que nos una sem exigir uniformidade, nem exclusão.

E essa mitologia pode estar se formando agora, enquanto falamos. Não nas escrituras antigas, nem nos manifestos ideológicos, mas nas histórias que estamos começando a descobrir sobre nossas origens, nos empreendimentos científicos desbravadores e nas aspirações crescentes sobre nosso destino enquanto civilização. Talvez a nova mitologia será a história de uma espécie que olha para o céu e decide que não vai mais esperar pelo arrebatamento místico, e muito menos pela extinção antes mesmo de sair do ninho. Vamos decolar!

Talvez o novo mito será uma história sobre preservar a Terra como santuário da vida enquanto nos preparamos para expandir além do nosso ninho cósmico. Talvez uma história sobre pertencimento global, ou universal, e não a uma nação e suas bordas imaginárias. Talvez o mito inclua Marte, Titã, Alfa Centauri, ou além! Talvez uma história sobre expandir nossa consciência, sem a dissolução do eu, mas através do reconhecimento de que somos parte de algo maior, sem deixar de ser nós mesmos.

Só quando tentamos transformar a utopia em projeto palpável é que realmente começamos a enxergar os pontos cegos que residem na superficialidade dos idealismos.

Vamos seguir com falhas, com conflitos, com negociação infinita. Conceber um projeto que não exija anjos-porteiros. Sejamos arquitetos dispostos a construir portas abertas. Engenheiros que projetem sistemas flexíveis em vez de perfeitos. Profetas e místicos que tenham fé na parceria com o diferente. Empreendedores que entendam que diversidade é uma funcionalidade, e não um defeito. Que confiemos uns nos outros mesmo sem concordar, e tenhamos sucesso em colaborar.

O Que Instinto de Eternidade Tenta Fazer

Minha saga não tem respostas prontas. É por isso que uso a liberdade criativa e poética da ficção. Mas tento explorar essa tensão: como navegamos entre a sede humana por ordem e a necessidade humana de liberdade? Como construímos um futuro sem construir muros?

Damiel e seus amigos, em busca do paraíso, encontram escolhas difíceis, alianças improváveis, tecnologias que resolvem problemas e criam outros, crenças que separam e crenças que unem, dúvidas que paralizam e dúvidas que criam movimento. E principalmente: encontram a necessidade de confiar em quem pensa diferente.

A Ilha Aurora, cidade privada experimental que será palco do segundo volume, é um laboratório onde testamos o que acontece quando tentamos construir o céu na Terra. E descobrimos, inevitavelmente, que o céu na Terra exige algo que nenhum mito antigo preparou bem: aceitar que o paraíso do outro pode ser diferente do seu. E que isso não é um problema, é uma condição.

Então, Onde Ficam os Muros?

Talvez a Terra não precise de um reino final. Talvez precise de milhares de reinos temporários, porosos, negociáveis. Não vejo erro em construir cidades alternativas , pelo contrário, acredito que deveria haver muito mais iniciativas de exploração de novos modelos de comunidades. O erro começa ao acreditar que apenas uma delas será A Cidade. Talvez o problema não seja ter regras, mas acreditar que algum conjunto de regras será perfeito o suficiente para durar para sempre e abranger os realmente merecedores.

E se, pela primeira vez na história, conseguíssemos fazer diferente? E se conseguíssemos construir sabendo que está incompleto, sabendo que vai precisar de revisão, sabendo que outras pessoas vão querer construir de forma diferente, e que isso é bom?

Não sei se seria um paraíso. Mas seria nosso. Juntos. Com todas as nossas diferenças. E talvez isso seja melhor que paraíso. Talvez seja simplesmente… humano.

Sim estamos falando de utopia. Afinal precisamos começar a falar mais de utopias! Já temos distopias demais, não acha?

Instinto de Eternidade é minha tentativa de explorar essas questões através da ficção científica hard e da mitologia comparada. O primeiro volume (lançado em março de 2025) se passa entre o Rio de Janeiro e Belém do Pará, e introduz o personagem Damiel. O menino embarca numa aventura cheia de mistérios, navegando entre tecnologia e espiritualidade num cenário muito próximo do nossa realidade atual, que fica cada vez mais caótica e futurista. No segundo volume (em desenvolvimento), a Ilha Aurora é uma cidade privada experimental na costa brasileira, e será o palco onde essas tensões se expandem.

Não tenho respostas definitivas. Mas tenho boas perguntas. E acredito que as perguntas certas, compartilhadas entre pessoas que pensam diferente, são mais valiosas que qualquer verdade absoluta.

Se essas questões te fascinam e te incomodam tanto quanto a mim, se você também anseia por um mundo melhor, mas está cansado das propostas de paraísos que exigem muros e exclusão, acompanhe a saga e conecte-se comigo aqui no Medium, ou no meu site, ou no Instagram (que é onde estou sempre mais ativo a partilhando coisas interessantes). As respostas sobre um futuro melhor começam com as histórias que escolhemos criar juntos.

Referências Bibliográficas e Conteúdos Recomendados

Livros e Ensaios Acadêmicos:
1. BOEHM, Christopher. Hierarchy in the Forest: The Evolution of Egalitarian Behavior. Harvard University Press.
2. CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus (Série). Editora Palas Athena.
3. CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces.
4. HARARI, Yuval Noah. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. L&PM Editores.
5. PLATÃO. A República. (Domínio Público).
6. SRINIVASAN, Balaji. The Network State: How To Start a New Country. (Livro disponível gratuitamente online).
7. AL-SHAMAHI, Ella. The Handshake: A Gripping History. Profile Books.

Textos Sagrados e Mitológicos:
A BÍBLIA SAGRADA.
O Livro do Apocalipse (Revelações). (Referências à Nova Jerusalém).
ANÔNIMO. O Livro dos Mortos do Antigo Egito. (Referências aos Campos de Junco / Aaru).
HOMERO. A Odisseia. (Referências aos Campos Elíseos).
STURLUSON, Snorri. Edda em Prosa: Gylfaginning. (Referências primária sobre Valhalla).
VALMIKI / VYASA. O Ramayana e O Mahabharata. (Épicos indianos que descrevem os veículos celestes Vimanas).
O ALCORÃO SAGRADO. Tradução do Sentido dos Significados. (Referência para o conceito de Sharia, Dajjal, e o Paraíso Islâmico).

Artigos, Notícias e Sites de Projetos:
FINANCIAL TIMES. The network state: the tech billionaires building new countries. (Matéria sobre investidores do Vale do Silício e cidades privadas).
PRAXIS SOCIETY. Praxis: The First Network State. (Site oficial da cidade privada mencionada).
PROJECT HYPERION. Interstellar Starship Design Competition. (Site oficial da competição com júri da NASA).
SILVEIRA JR, David. Mitos no Vale do Silício – Hackeando o Anticristo. (Artigo complementar do autor).
SILVEIRA JR, David. Arkkana – Da Ficção às Estrelas (Artigo complementar do autor).
SILVEIRA JR, David. Projeto Detalhado da Nave Geracional Arkkana (Booklet Behance com o detalhamento do projeto que foi enviado para a competição Hyperion).
SILVEIRA JR, David. 7 Cidades Privadas (e utópicas) em construção neste exato momento. (Post no Instagram citado no texto).

Ficção e Arte:
CARD, Orson Scott. O Jogo do Exterminador (Ender’s Game). Editora Aleph.
WILLIAMS, Roger. The Metamorphosis of Prime Intellect. (Obra completa disponível online).
FOGELMAN, Dan. Paradise. Hulu/Disney+, 2025.
Pluribus (Série/Conceito). AppleTV.

Este artigo também foi publicado no meu perfil do Medium.

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