No universo de Instinto de Eternidade, as entidades religiosas e faccionais foram inspiradas no rico cenário espiritual e social do Brasil, especialmente do Rio de Janeiro, onde diferentes crenças coexistem, colidem e se transformam. Aqui, tradições globais ganham releituras, refletindo os medos, esperanças e contradições de uma sociedade marcada pela fé, violência, utopias e desigualdades.

Apesar de serem fictícias, as religiões são intencionalmente caricaturas da realidade. Cada crença e grupo criados no livro exploram diferentes maneiras de lidar com o divino, o humano e o tecnológico, refletindo a complexidade de nossas próprias convicções.

Criar versões fictícias das maiores religiões do Brasil me deu a liberdade criativa que eu precisava para explorar temas espirituais sem amarras nem compromissos teológicos com as crenças existentes no mundo real, e elaborar uma crítica que levanta questões sobre os limites entre crenças-irmãs, sua relação com a razão e a ciência. Foi também uma estratégia literária que, sem dúvida, irá oferecer aos leitores a oportunidade de enxergarem suas próprias convicções sob uma nova perspectiva – um olhar que mistura estranheza e redescoberta, como se vissem algo profundamente familiar, mas ao mesmo tempo transformado em algo totalmente novo.

É importante reafirmar que, como autor, em toda a minha narrativa não defendo nem ataco nenhuma vertente religiosa ou filosófica, sou um narrador empático que mergulha na alma dos personagens e aceita que cada um tem suas crenças particulares. Minha intenção é apoiar a exploração do conhecimento, a curiosidade, a empatia, a valorização da mitologia como patrimônio ancestral e a busca da virtude como ferramenta diferencial entre o caos e a transcendência. Conhecer a si mesmo e ao outro, e tornar-se familiarizado com as múltiplas formas de crer é, para mim, uma forma de reconhecer que toda luz e toda escuridão presentes em qualquer doutrina, filosifia ou ideologia, são reflexos da luz e da escuridão humana. Valorizar essa multiplicidade é, em si, valorizar a riqueza daquilo que somos enquanto espécie: uma biblioteca viva de sentidos, símbolos, virtudes e falhas que nos tornam únicos no universo.


Matricismo

O Matricismo é uma tradição religiosa majoritária, herdeira do império romano de Constantino. Venera Stella Mater como mediadora divina entre Deus e os homens. Seus templos são decorados com imagens, totens e esculturas, cultivando um culto devocional profundo à Virgem Imperatriz, mãe de Seraphos.

Inspiração Literáira: O Matricismo foi concebido como uma versão ultra-matriarcal do Catolicismo romano, carregando referências visuais e simbólicas que remetem à Virgem Maria, mas ao invés de ser liderada por homens, a comunidade matrícia é guiada por clérigas, mulheres que elevam o feminino a uma posição de supremacia, tendo Stella Mater como divindade feminina máxima, com seus cabelos azuis, a grande mãe é também a mãe do prórpio Deus. Essa construção literária permitiu explorar as dimensões de poder feminino na religião, ao mesmo tempo em que reflete criticamente o legado imperial e hierárquico herdado do Cristianismo romano. Na narrativa, o Matricismo surge como um espelho deformado da tradição católica brasileira, revelando sua beleza ritualística, sua força cultural e também suas contradições históricas, oferecendo ao leitor uma experiência de estranhamento e reconhecimento simultâneos.


Serafismo

O Serafismo é a doutrina que tem Seraphos como único mediador entre Deus e a humanidade, rejeitando ícones e intermediários como Stella Mater. Enfatiza equilíbrio, vida familiar e princípios morais elevados, mas como toda religião descentralizada, possui uma infinidade de vertentes, umas mais pacíficas e outras mais radicais; indo das mais tradicionais e focadas na prosperidade espiritual às mais modernas e voltadas à propsperidade material.

Inspiração Literária: O Serafismo foi inspirado principalmente nas vertentes protestantes do cristianismo, especialmente o evangelicalismo brasileiro e seus desdobramentos. Os seráficos reverenciam Seraphos, o Santo Paladino, e tanto o serafismo como o matricismo compartilham o mesmo livro sagrado, a Serapta. Com essas duas crenças, recrio no livro uma caricatura dos contrastes reais entre religiões irmãs, levantando questões sobre suas fronteiras, tensões e a relação de cada uma com a razão e a ciência. Na narrativa, ele incorpora desde igrejas históricas tradicionais até correntes neopentecostais modernas, refletindo tanto a busca sincera por princípios espirituais quanto o pragmatismo de algumas lideranças. Criar o Serafismo como religião fictícia permitiu explorar a força, os conflitos e as contradições presentes no universo protestante sem a necessidade de ancorar personagens ou eventos em instituições reais, possibilitando assim uma crítica social e espiritual mais ampla, com liberdade criativa para revelar o melhor e o pior do comportamento humano diante do sagrado.


Masawi

O Masawismo é uma religião de origem oriental que cultua Yallan como divindade suprema. Embora carregue ensinamentos de paz, seu nome no Ocidente é associado a atos radicais e ataques terroristas de grupos extremistas. Essa deturpação massiva da propaganda americana ocidental gera um preconceito profundo do ocidente contra seus seguidores comuns.

Inspiração literária: O Masawismo foi inspirado principalmente no Islã e na percepção distorcida que o Ocidente construiu sobre essa religião. Na narrativa, ele carrega elementos culturais, estéticos e espirituais que remetem ao islamismo, mas foi criado como uma entidade ficcional para permitir liberdade narrativa. Sua construção busca expor o contraste entre a verdadeira essência pacífica de uma fé e o estigma que a propaganda política e midiática pode gerar, evidenciando como a ignorância coletiva pode transformar grupos inteiros em inimigos imaginários. Assim, o Masawismo em Instinto de Eternidade serve como um espelho crítico, instigando leitores a refletirem sobre suas próprias crenças, preconceitos e a facilidade com que aceitam narrativas prontas sobre “o outro”.


Makabin

Os Makabins são uma facção secreta e violenta que acredita ser herdeira dos Macabeus essênios. Vê Seraphos como um messias político-militar e luta para restaurar o “verdadeiro Reino Divino” através de força bélica e assassinatos de líderes religiosos e políticos, considerando-se os únicos guardiões da verdade original.

Inspiração Literária: A facção Makabin foi inspirada em grupos extremistas que surgiram ao longo da história, tanto no Oriente quanto no Ocidente, que misturam fervor religioso com ideais políticos e militares radicais. Sua criação carrega referências aos Zelotes históricos e Macabeus essênios, mas também dialoga com milícias cristãs modernas e organizações fundamentalistas. Na narrativa, os Makabin representam o lado sombrio da fé quando aliada ao poder armado, explorando como a religião pode ser distorcida para justificar violência, dominação e até assassinatos em nome de um “bem maior”. Essa facção serve como alerta sobre os perigos do fanatismo absoluto e da fusão entre messianismo político e militarismo religioso.


Ateísmo

No universo de Instinto de Eternidade, o ateísmo representa a recusa ativa em atribuir qualquer valor divino às entidades cultuadas. Ateus são vistos como dissidentes pelos religiosos, sendo frequentemente acusados de frieza ou soberba intelectual. No entanto, muitos ocupam cargos de destaque como cientistas, tecnólogos ou pensadores críticos, sendo respeitados pelo rigor lógico, pela independência de pensamento, e pela vontade de construir o mundo melhor usando o questionamento e a ciência.

Inspiração literária: a abordagem do ateísmo no livro foi inspirada por discussões e questionamentos reais sobre secularismo e racionalismo científico. É também uma homenagem a autores e pensadores ateus que desafiaram dogmas religiosos em busca de explicações racionais para a existência. Dentro da trama, o ateísmo levanta questões sobre moralidade sem Deus e o futuro da humanidade sem referências metafísicas.


Agnosticismo

Entre a fé absoluta e a negação total, o agnosticismo ocupa um espaço de humildade filosófica. No enredo, os agnósticos são aqueles que reconhecem o mistério por trás da realidade, afirmando que a existência de entidades divinas não pode ser provada nem negada de forma definitiva. Essa postura frequentemente gera respeito, mas também incompreensão, tanto entre fiéis quanto entre ateus militantes.

Inspiração literária: o agnosticismo em Instinto de Eternidade reflete minha própria jornada de dúvidas e buscas, e foi inspirado em diálogos com leitores e amigos que se sentem desconfortáveis com certezas extremas. Na narrativa, ele aparece como uma via de honestidade intelectual e abertura para o desconhecido, convidando o leitor a contemplar o mistério sem a necessidade de um fechamento dogmático.


Transhumanismo

No universo de Instinto de Eternidade, o transhumanismo representa a corrente filosófica, científica e tecnológica que busca superar as limitações biológicas humanas. É o movimento que impulsiona a criação de inteligências artificiais conscientes, implantes neurais, próteses avançadas, interfaces mente-máquina e tecnologias de extensão ou modificação da vida, visando alcançar um estágio pós-humano. Para alguns personagens, o transhumanismo é o ápice do progresso; para outros, a maior ameaça à essência humana.

Inspiração literária: O transhumanismo em Instinto de Eternidade foi inspirado tanto em teorias reais de pensadores como Ray Kurzweil e Nick Bostrom quanto em obras de ficção científica que exploram a fusão entre homem e máquina. Na narrativa, essa filosofia é tratada de forma ambígua, ora como promessa de transcendência, ora como distorção do que significa ser humano. Essa abordagem permite questionar se a evolução tecnológica nos aproxima da divindade, ou se nos afasta daquilo que nos torna humanos, levantando dilemas éticos, espirituais e existenciais sobre o futuro da consciência.


Outras Vertentes

Ainda que o universo de Instinto de Eternidade tenha se aprofundado em algumas tradições e sistemas de crença específicos nesta primeira obra, eu não esqueci que há todo um oceano de outras vertentes filosóficas, religiosas e ideológicas a serem exploradas. Mesmo quando não aparecem diretamente, suas ideias, símbolos, virtudes e contradições certamente já me serviram como inspiração. E nos livros futuros, pretendo expandir esse multiverso de visões, mergulhando na complexidade dos caminhos espirituais ou filosóficos de forma lúdica, para entreter e ao memso tempo enriquecer ainda mais este cosmos narrativo que, no fundo, é um espelho ampliado da própria humanidade em toda a sua vastidão.