Instinto de Eternidade — Plano de Caos
Amostra gratuita • David O. Silveira Jr.
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Capítulo 1
Beato de mãos hábeis
Ano 2024, Rio de Janeiro, madrugada de domingo, 6 de outubro
— Boa noite, querida — disse a voz grave em um canto da sala escura. Lisipo tinha seus 73 anos, e aparentava ser mais magro do que os limites do saudável.
— Espero não a ter incomodado, querida — continuou ele, fechando a porta atrás de si, enquanto entrava no recinto em passos vagarosos.
A saleta lúgubre, apesar de pequena, exigia de quem ali entrasse um bom conhecimento do local, pois tudo era quase totalmente escuro. Era madrugada, contudo, parecia impossível ter alguma noção de tempo ali dentro, pois não havia janelas para deixar entrar qualquer luminosidade. A não ser por aquele único foco de luz direcional lá nos fundos, que pendia do teto projetando um feixe cônico, iluminando uma recatada silhueta feminina.
— Vim terminar o que começamos — sussurrou Lisipo calidamente, caminhando em direção a ela, que permanecia de pé e de costas, a ignorá-lo, retraída, coberta apenas pelo espesso manto de luz da luminária, um manto que não a escondia, mas justo o contrário, revelava cada minúcia de sua alva nudez.
A penumbra apenas permitia perceber que Lisipo calçava suas luvas. E à medida que murmurava doces palavras para sua jovem e silenciosa musa, era possível ouvi-lo manuseando uma série de ferramentas metálicas em uma bancada à sua frente.
— Não é extraordinário imaginar que sou o único que um dia já teve a honra de lhe tocar, querida? Eu tenho esse dom. O dom de poder tocar o intocável, e o sagrado… — os olhos dele brilhavam, e sua mente vagava relembrando cada momento que o trouxera até ali. Sua voz tremulava, degustando o êxtase de cada palavra, e continuou:
— Seria mais incrível ainda se você pudesse aceitar, e entender que hoje, por intermédio de minhas mãos, você está nascendo… — mas conforme terminava de pronunciar estas palavras, sua excitação minguava, e gradualmente seus olhos foram perdendo o brilho. Até que uma sombra amarga tomou conta do seu rosto, e prosseguiu:
— Sim, você está nascendo, doce criatura. No entanto, daqui a sete dias, sabemos que morrerá. Mesmo assim, não se preocupe, meu anjo, porque antes que isso tudo aconteça o mundo já terá conhecido a beleza íntima revelada em cada detalhe do seu corpo… — aproximou-se suavemente do pescoço dela e, após um farto suspirar, completou:
— Mas não se engane, bela criatura. Quem sente esse seu perfume convidativo não imagina o fedor que emana das entranhas de sua alma… — dizia Lisipo enquanto lentamente aproximava uma ferramenta afiada do rosto delicado de sua musa, e concluía:
— … e felizmente, querida, nesse mesmo dia, todos também conhecerão a podridão e a morte que há dentro de você. E seu sacrifício final será lembrado, como o começo de tudo.
Áurea dominical
Raiou o dia na casa da família Bastos. Um teimoso feixe de luz solar matinal entrava pelo quarto, através de uma fresta daquela cortina que nunca cobria a janela por inteiro. Como de costume, lá estava o pequeno Damiel entre as cobertas, forçando seus olhos a se abrirem, incomodados pela luz daquela manhã de outubro.
Aquelas manhãs tinham sempre o mesmo cheiro. Talvez as maiores lembranças de uma criança sejam guardadas nos cheiros. Quem nunca sentiu algum cheiro da infância? Cheiro de Natal, família reunida, cheiro de casa da vovó, cheiro de blusa do papai, cheiro de férias, cheiro daquele travesseiro de estimação. Pois bem, desta vez era cheiro de domingo.
Damiel acordava sempre bem cedo todos os dias da semana, porém, no domingo era diferente, não só no cheiro. Seu pai, Arthur, colocava sempre uma música bem alta e todos se levantavam para se arrumar. Não que a música animasse a Damiel e Vitor, seu irmão caçula, pois nada nesse mundo poderia tornar o ato de levantar-se pela manhã uma tarefa agradável para eles; mas já que era impossível dormir com o som naquele volume, o melhor era render-se e acordar de uma vez. Não era o cheiro típico, nem a música alta, mas algo tornava o dia diferente, uma expectativa, uma leve ansiedade, algo muito gostoso e suave, que aquela alma de criança ainda não entendia, apenas degustava. Após o banho frio e um rápido café da manhã, logo toda a família estava no carro a caminho da Santa Igreja Seráfica da Família, no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro.
Estacionaram na garagem da Igreja, na vaga reservada ao reverendo. Sim, o senhor Arthur era reverendo daquela congregação religiosa adepta ao Serafismo. A Santa Igreja Seráfica da Família era bem conhecida por enfatizar princípios de valorização da família como instituição sagrada, alicerçando suas bases na doutrina do seu livro sagrado, a Serapta. Eles valorizavam uma vida de equilíbrio, tendo como figura máxima um Deus chamado Seraphos, que também era chamado de Santo Paladino.
— Damiel e Vitor, peguem suas Seraptas e vão direto para a escolinha dominical! — convocou Carina, uma mãe afetuosa, mas sempre assertiva com relação às “coisas de Deus”. Em uma era dominada pelo digital, onde o papel impresso se tornava cada vez mais uma relíquia, Carina não abria mão da tradição: na casa da Família Bastos, cada um tinha sua própria Serapta feita de papel e capa de couro, além das inúmeras outras versões na biblioteca do papai, claro.
Mal o carro parava, Damiel e seu irmão saltavam do veículo em uma corrida pelo amplo pátio pavimentado com paralelepípedos. O pátio era uma grande esplanada retangular a céu aberto, quase um santuário em si, e era circundado por amendoeiras majestosas cujas copas frondosas uniam-se lá no alto, compondo uma bela abóbada vegetal. A folhagem vibrava no auge da primavera tropical, exibindo tons convidativos de verde, branco, rosa e lilás, trazendo um brilho fresco e revitalizante àquele dia. Os densos ramos permitiam que apenas os raios mais amigáveis do sol fizessem seus ricochetes entre os cubos de pedra cinzenta do chão, por onde as duas crianças zigue-zagueavam. Qualquer um acharia engraçado ver aqueles dois pirilampos cabeçudos, com seus cabelos negros e lisos chacoalhando como espanadores, correndo impulsionados pela alegria desenfreada da infância, como se cada membro do corpo quisesse fazer todos os movimentos possíveis ao mesmo tempo, cada um com sua pequena Serapta em mãos.
Damiel com seus nove anos, e Vitor com sete, eram apenas crianças. Só queriam tempo para brincar, explorar e aprender. Seus olhos castanho-escuros, vivos e arregalados, estavam sempre famintos de aventuras, absorvendo e devorando todas as cores e movimentos ao seu redor. Entretanto, não eram simples fossos abertos; tudo era meticulosamente filtrado pela sabedoria de seus pais, na medida do possível. Eram crianças que corriam e que, se pudessem, voariam; e de fato podiam voar, graças às asas da imaginação.
Nunca foi nada combinado: Os irmãos sempre cumpriam o ritual da corrida pelo pátio, cruzando os varandões que circundam a grande área retangular, correndo e deslizando nas curvas pelo chão liso de azulejos vermelhos.
— Bom dia, senhor Lisipo robozão! — cumprimentavam ao zelador, que morava ali mesmo.
— Booom di-a, cri-an-ças! — Ele respondia com sua voz grave em um tom robótico brincalhão. O senhor Lisipo era um homem bastante sério, mas tinha um grande coração. Às vezes largava todos os afazeres só para divertir a criançada fazendo sua famosa “voz do robozão”. Era bem engraçado, e à primeira vista, causava surpresa ver que aquele senhor franzino e já avançado em idade, podia ainda assim produzir um vozeirão daqueles. Enquanto os meninos passaram deslizando por entre as pernas do senhor Lisipo, ele completou:
— Meninos! Vão devagar, e não subam a escadaria da torre hoje, passei cera nos degraus e não quero que escorreguem! — os meninos já estavam a distância, mas sinalizaram que haviam compreendido. Continuaram sua corrida, fazendo pouco caso de qualquer conselho, e por fim Lisipo completou gritando — Além do mais, não quero que cheguem perto da minha porta secreta… tenho lá uma coisa importante, mas não quero que ninguém a veja!
— A porta secreta? Uma coisa importante que ninguém pode ver? — essas palavrinhas fizeram os meninos pararem de imediato, atiçados. Olharam para trás, no entanto, o senhor Lisipo já havia dado as costas. Os dois irmãos se entreolharam:
— Vamos explorar! — gritou Vitor já em disparada. Ficar parado nunca era uma opção. Esta era sua aventura preferida: explorar lugares, brinquedos, aparelhos eletrônicos, instrumentos musicais, desbravando tudo o que pudesse representar um mistério; e enquanto Damiel se perdia na beleza de seus mundos imaginários, Vitor era fascinado pela beleza da realidade em sua magnífica dinâmica, e queria sempre descobrir como tudo funcionava.
Por mais familiar que fosse o lugar, sempre havia algo novo para “explorar”. Mas ali era um local nitidamente especial: o estabelecimento onde funcionava a Santa Igreja Seráfica da Família era na verdade uma escola chamada Escola Matrícia Terezina, que funcionava durante a semana. Porém, como a escola não abria aos domingos, a igreja seráfica havia recebido permissão para utilizar a pequena capela da escola matrícia e realizar ali seus cultos dominicais. Eram então fiéis seráficos, reunidos num espaço matrício. Este fato era por si só intrigante, uma vez que usualmente não havia muita proximidade entre estas duas vertentes religiosas, não só por conta das diferenças de liturgia, mas principalmente pelos conflitos teológicos. Apesar disso, podem ser consideradas “religiões irmãs”, afinal, possuem as mesmas origens. Juntos, o matricismo e o serafismo constituem-se como as duas maiores religiões do Brasil e do mundo.
Aos sábados a sacerdotisa matrícia realizava sua missa, e aos domingos, emprestava sua capelinha matrícia para que o reverendo seráfico pudesse realizar um sermão com seus fiéis. Este fato chamava a atenção da vizinhança local. Essa alternância desenhava os esboços de um mundo onde a diversidade espiritual coexistia em tolerância e equilíbrio. E esta situação trazia, para alguns, uma agradável sensação de harmonia, enquanto para outros, um grave desconforto de incoerência.
A dama da torre
Na Escola Matrícia Terezina havia muitas, muitas portas. Algumas escancaradas, outras muito bem trancadas. E portas trancadas têm aquele mítico atrativo particular, um convite à fantasia, que aguça a imaginação. Havia ali um portão em especial, que ficava sempre trancado guardando seus segredos, fertilizando com mil possibilidades as mentes criativas dos meninos Damiel e Vitor. Entretanto, este portão era especialmente intrigante, pois o senhor Lisipo o chamava de “porta secreta”, e isto conferia um magnetismo ainda mais forte. Mas como se isso já não bastasse, desta vez Lisipo havia mencionado algo importante, uma novidade velada por mistério, um segredo que intencionava manter oculto. Obviamente, o alerta de interdição causou o efeito oposto ao desejado: como todo fruto proibido, sua simples menção é o suficiente para torná-lo covardemente irresistível. Para mentes inquietas e famintas por descoberta, aquela proibição era um convite silencioso, um chamado sedutor que a curiosidade dos meninos não podia ignorar.
Pararam ofegantes ao pé da escadaria. Diante deles, a sequência de degraus apontava o caminho até o enigmático portão lá em cima. Após retomar o fôlego, Vitor ergueu a cabeça e lançou um olhar travesso ao irmão, em um gesto provocador. Após vislumbrar a escuridão acima, Damiel retribuiu o olhar, aceitando o desafio.
Subiram a escadaria que levava à torre de sinos da escola. O corredor que subia reto era bem estreito, e parecia ter sido feito para a passagem de apenas uma pessoa de cada vez, entretanto, os irmãos faziam questão de se manter lado a lado, ambos apoiados com as mãos firmemente no ombro do outro para certificar que nenhum dos dois iria fugir. Cada passo, por mais sorrateiro que fosse, ecoava; a iluminação escassa fazia o coração acelerar a cada degrau, potencializando o medo. Metros acima, já era possível sentir uma sutil corrente de ar e ver o contorno luminoso e retangular delimitando as frestas do portão, indicando que havia bastante luz do outro lado. Na verdade, do outro lado havia uma esplanada circular e aberta, por onde a claridade do dia podia entrar, e o som dos sinos podia ecoar livremente quando tocados. Aproximaram-se da fresta vertical e espreitaram a claridade que vinha lá de fora. Inicialmente a luz era ofuscante, mas após alguns segundos, suas pupilas contraíram-se o suficiente para que a bruma radiante se esvaísse, revelando a razão do mistério que envolvia aquele mítico portal:
— Ela está ali? — Indagou Vitor, ansioso.
— Calma, fica quieto, sim, ela está ali! — respondeu Damiel.
— Chega para lá, deixa eu ver — falou o caçula abrindo espaço logo abaixo do irmão, seus olhos ainda se adaptando à luz. Observavam pela fresta do portão aquela familiar silhueta feminina vultosa a se formar por entre os véus de luminosidade que se desfaziam — Acho que… acho que hoje ela está mais perto, bem aqui em frente… será que ela está olhando para nós, Dami?
Cochichavam tão baixinho que era difícil distinguir se aquela conversa era mesmo um sussurro ou telepatia de irmãos. Um momento tão banal aos olhos de um adulto, mas repleto de êxtase infantil. Estavam imersos em sua própria glória de aventureiros imaginários, pois finalmente podiam vislumbrar fascinados, frente a frente, a musa dos seus mistérios ingênuos, ela que desde há muitas manhãs dominicais os alimentava a imaginação, vítima de suas fantasias infantis, sendo algumas vezes tida por bruxa, outras vezes por princesa aprisionada, ela, a mulher da torre.
Com seu volumoso vestido de seda branca ornamentada, sempre coberta com o longo véu azul-turquesa, vez por outra ela estava por lá a cuidar de suas estranhas e solitárias meditações, sempre em um canto ou outro da penumbra, porém, nunca tão perto do portão como agora. Ela tinha um imponente diadema dourado, esculpido com intrincados florais, e finas hastes que se projetavam em um feixe circular que irradiava em torno de sua cabeça, representando um halo de santidade. O diadema estava suavemente apoiado sobre os seus exóticos cabelos azuis ondulados. Naquele momento ela permanecia inerte, voltada para o portão, mas pelo visto ela não havia notado os meninos curiosos. Sua feição, meiga e vaga, estava fixa no portão como se pensasse em abri-lo, ou apenas perdida em pensamentos. A pele delicada do seu rosto era tão branca que reluzia refletindo a luz, semelhante à… porcelana?
Em um estalo de pensamento, Damiel finalmente concluiu: "É uma estátua!".
Nunca tinham visto a mulher tão de perto, entretanto, uma vez que seus olhos se adaptaram à luz, Damiel percebeu em um relance que aquela “mulher silenciosa” não era nada mais que uma réplica daquela mesma estátua da Virgem Imperatriz Stella Mater que havia na entrada da capela, só que esta era uma versão maior, pois tinha o tamanho real de uma pessoa, além de vestir roupas de verdade! Percebendo a instantânea revelação por trás da misteriosa mulher da torre, decidiu aproveitar o momento de glória para executar a travessura final no irmão caçula:
— Vitor, ela é um fantasma! — bradou Damiel ao mesmo tempo em que deu um grande murro no portão de metal, que estremeceu como um trovão, ressoando grave e retumbante. Vitor instantaneamente respondeu de forma óbvia, berrando insano e debatendo-se escadaria abaixo enquanto o irmão vinha logo atrás, gargalhando exultante como um vilão vitorioso.
Percebendo que o irmão lhe havia pregado uma peça, Vitor puxou Damiel pela camisa e trambecaram-se escada abaixo, até se esborracharem, braços e pernas embrenhados, mas sem nenhum arranhão; aquele típico tombo que quebraria o pescoço de um adulto sóbrio, porém, nunca o de uma criança ou de um bêbado.
— Por que você fez isso? — disse Vitor, furioso.
— A mulher da torre é só uma estátua! — disse Damiel ainda rindo alto — Agora pare você de gritar!
— Não estou gritando! — gritou Vitor.
— Espera! Ouça isso! — um ruído vindo da escadaria silenciou a discussão. Cobriram as bocas um do outro com as mãos, olhando arregalados para a escuridão de onde vinha o som de passos trôpegos.
Alarme falso.
Vitor tinha apenas descido as escadas mais rápido que um dos seus sapatos, que chegava agora retardatário. Contudo, ao voltarem novamente os olhos lá para cima, perceberam que o portão, ainda reverberando grave, estava totalmente aberto! Não tinham verificado esse detalhe antes, já que todas as vezes que o tentavam abrir, estava sempre trancado. Mas a pancada de Damiel escancarou de vez a entrada, e agora era possível ver por inteiro a majestosa figura lá em cima, com toda a densa luz que a envolvia.
Outra vez enfeitiçados, esqueceram a briga. Pois como se não bastasse a recente descoberta sobre a identidade da mulher misteriosa, o grande portão agora se apresentava aberto. Damiel tirou do bolso um telefone celular e começou a filmar. Subiram para admirá-la de perto, ainda temerosos, pois apesar de agora entenderem que se tratava apenas de uma estátua, ela ainda causava aquela estranheza ao mesmo tempo fúnebre e vivaz, como a maioria das esculturas sacras. Mesmo assim, alguma coisa nos olhos distantes daquela escultura atraiu o olhar dos garotos logo que se aproximaram. Damiel aumentou o zoom com o celular. Ainda estavam concebendo os fatos, quando Damiel arregalou os olhos em espanto, e Vitor, no mesmo instante, apertou firme o braço do irmão ao vislumbrar o mesmo evento estarrecedor: uma lágrima de sangue afluiu abundante dos olhos da estátua.
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O que os meninos acabaram de presenciar é apenas o começo. Continue a leitura de Instinto de Eternidade — Plano de Caos.
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